Infertilidade idiopática: o que é e como pode ser tratada?
O que vai encontrar neste artigo?
- Em que consiste a infertilidade idiopática?
- Que tipos de infertilidade existem?
- Causas da infertilidade idiopática: o que pode estar na origem?
- Em que consistem a laparoscopia, a histeroscopia e a HyCoSy?
- Qual o tratamento para a infertilidade idiopática?
Estão a tentar engravidar há bastante tempo? Já realizaram os exames de primeira linha, que não revelaram qualquer alteração, mas o teste de gravidez continua a dar negativo? Se receberam o diagnóstico de infertilidade idiopática, explicamos quais são as opções atualmente disponíveis para lidar com esta situação.
Em que consiste a infertilidade idiopática?
Fala-se em infertilidade quando um casal que mantém relações sexuais regulares e desprotegidas não consegue engravidar ao fim de 12 meses. A avaliação pode estar indicada mais cedo, nomeadamente quando a mulher tem 35 ou mais anos ou quando existem fatores de risco conhecidos para infertilidade.
Após um ano de tentativas sem sucesso, é habitual que os especialistas recomendem uma avaliação completa de ambos os elementos do casal, uma vez que as causas da infertilidade podem estar relacionadas tanto com a mulher como com o homem.
Em alguns casos, todos os exames realizados apresentam resultados normais. Os níveis hormonais encontram-se dentro dos valores esperados, o espermograma não revela alterações, a mulher ovula regularmente e não existem doenças associadas nem alterações anatómicas que dificultem a conceção.
Quando isso acontece, o médico pode diagnosticar infertilidade idiopática (ou infertilidade de causa inexplicada), uma condição que, segundo as estatísticas, representa cerca de 20% a 30% dos casos de infertilidade tratados.
Que tipos de infertilidade existem?
Existem dois tipos principais de infertilidade:
- Infertilidade primária – quando nunca ocorreu uma gravidez.
- Infertilidade secundária – quando já ocorreu uma gravidez anteriormente, mas existe atualmente dificuldade em conseguir uma nova gravidez.
Da mesma forma, podemos falar em:
- Infertilidade idiopática primária, quando não é possível identificar a causa da infertilidade e o casal está a tentar ter o primeiro filho.
- Infertilidade idiopática secundária, quando já existiu uma gravidez anterior, mas o casal não consegue voltar a engravidar e a causa permanece desconhecida.
Causas da infertilidade idiopática: o que pode estar na origem?
Na infertilidade inexplicada, não é possível identificar uma causa específica através da avaliação clínica e dos exames habitualmente utilizados.
É possível que estejam envolvidos fatores que ainda não conseguimos avaliar adequadamente ou que resultem da interação de vários mecanismos, relacionados com a qualidade dos gâmetas, fecundação, desenvolvimento embrionário ou implantação. No entanto, estas hipóteses não podem ser confirmadas na maioria dos casos e, mesmo após vários exames de rotina e procedimentos, pode não ser possível detetar pequenas alterações anatómicas que interfiram com o transporte do óvulo ou dificultem a correta implantação do embrião no útero.
Que exames podem fazer parte da investigação?
A avaliação depende da história clínica e pode incluir:
- avaliação da ovulação;
- espermograma;
- avaliação da cavidade uterina;
- avaliação da permeabilidade das trompas;
- outros exames dirigidos quando existe indicação clínica.
Exames como a HyCoSy, histeroscopia ou laparoscopia não são necessários em todas as mulheres e são solicitados de acordo com a suspeita clínica.
Em que consistem a laparoscopia, a histeroscopia e a HyCoSy?
Laparoscopia ginecológica
A laparoscopia é um procedimento cirúrgico minimamente invasivo que permite observar diretamente os órgãos da cavidade pélvica e abdominal e, sempre que necessário, tratar alterações como quistos, miomas ou focos de endometriose que possam contribuir para a infertilidade.
Histeroscopia
A histeroscopia permite observar diretamente o interior da cavidade uterina e pode ser utilizada quando existe suspeita de alterações como pólipos, miomas submucosos ou outras alterações da cavidade uterina.
Existem dois tipos de histeroscopia:
- Diagnóstica, utilizada para observar a cavidade uterina.
- Operatória, que permite tratar determinadas alterações durante o próprio procedimento.
HyCoSy
A HyCoSy (Hysterosalpingo-Contrast Sonography), também conhecida como Sono-HSG, é um exame utilizado para avaliar a permeabilidade das trompas de Falópio.
Durante o procedimento é introduzido um meio de contraste através do colo do útero. Se o líquido passar pelas trompas e atingir a cavidade abdominal, significa que estas estão permeáveis, aumentando a probabilidade de uma conceção natural.
Além destas hipóteses, existem outros fatores que poderão estar associados à infertilidade idiopática, como:
- alterações genéticas ou funcionais dos gâmetas (óvulos e espermatozoides) e dos embriões;
- alterações genéticas dos parceiros que ainda não podem ser identificadas pelos métodos atualmente disponíveis;
- dificuldades no processo de fecundação ao nível celular;
- alterações na implantação do embrião.
Importa recordar
A infertilidade idiopática é frequentemente uma das formas de infertilidade mais difíceis de aceitar, precisamente porque não existe uma causa concreta que explique a dificuldade em engravidar.
A ausência de um diagnóstico específico pode tornar mais difícil definir o tratamento mais adequado e provocar sentimentos de frustração, ansiedade, culpa ou impotência. É importante lembrar que o diagnóstico não significa que alguém tenha feito alguma coisa errada ou que exista necessariamente um comportamento responsável pela dificuldade em engravidar.
Se sentirem que esta situação está a ter um impacto significativo no vosso bem-estar emocional, poderá ser útil procurar apoio psicológico. O acompanhamento por um profissional pode ajudar-vos a lidar com o stress e com as emoções associadas a este processo.
Qual o tratamento para a infertilidade idiopática?
Se o médico confirmar o diagnóstico de infertilidade idiopática (ou infertilidade de causa inexplicada), existem, de um modo geral, duas abordagens possíveis.
1. Expectativa vigiada
Nesta fase, é provável que já tenham realizado uma investigação clínica completa. Por isso, o especialista poderá recomendar que continuem a tentar engravidar de forma natural durante mais algum tempo. Esta estratégia é conhecida como expectativa vigiada.
Esta abordagem é geralmente recomendada quando:
- a mulher tem menos de 35 anos;
- não apresenta problemas de saúde que possam comprometer a fertilidade;
- a reserva ovárica (avaliada, por exemplo, através da hormona anti-mülleriana – AMH) é considerada normal.
Estima-se que, nestas circunstâncias, cerca de metade dos casais com infertilidade inexplicada consiga uma gravidez espontânea durante o segundo ano de tentativas.
2. Técnicas de procriação medicamente assistida
Se não pretendem continuar a esperar ou se o médico considerar que esta é a opção mais adequada, poderão ser propostas técnicas de procriação medicamente assistida.
As opções mais frequentes incluem:
- Inseminação intrauterina (IIU), que consiste na colocação de espermatozoides previamente preparados diretamente no útero, geralmente no período próximo da ovulação. Pode ser realizada num ciclo natural ou associada a medicamentos para estimular a ovulação, dependendo da situação clínica.
- Fertilização in vitro (FIV), em que a fecundação do óvulo ocorre em laboratório e o embrião é posteriormente transferido para o útero.
De uma forma geral, a FIV é frequentemente considerada quando a infertilidade idiopática persiste, quando outras estratégias não foram bem-sucedidas ou quando fatores como a idade da mulher ou a duração da infertilidade tornam aconselhável uma abordagem mais eficaz. No entanto, a decisão depende sempre da avaliação clínica individual de cada casal.
Embora a infertilidade idiopática signifique que não foi identificada uma causa específica para a dificuldade em engravidar, isso não significa que a gravidez seja impossível. Atualmente existem várias opções terapêuticas que podem aumentar significativamente as probabilidades de sucesso.
Muitos casais com este diagnóstico conseguem concretizar o sonho de ter um filho, seja através de uma gravidez espontânea ou com recurso a tratamentos de fertilidade. Por isso, é importante manter a esperança e seguir o plano definido pela equipa médica que acompanha o vosso caso.
Perguntas frequentes sobre infertilidade idiopática
A alimentação e o estilo de vida podem aumentar as probabilidades de engravidar em caso de infertilidade idiopática?
Sim. Uma alimentação equilibrada e um estilo de vida saudável podem contribuir para melhorar a fertilidade, mesmo quando a causa da infertilidade é desconhecida.
As recomendações dos especialistas incluem:
- consumir uma alimentação rica em legumes, fruta e cereais integrais;
- privilegiar gorduras saudáveis, como as presentes no peixe, frutos secos e azeite;
- incluir fontes de proteína vegetal;
- manter um peso corporal adequado;
- praticar atividade física regularmente;
- limitar o consumo de álcool;
- evitar o tabaco.
Embora estas medidas, por si só, nem sempre resolvam o problema, podem aumentar as probabilidades de conceção natural e melhorar os resultados dos tratamentos de fertilidade.
Que exames devem ser realizados quando existe suspeita de infertilidade idiopática?
O objetivo é excluir todas as causas conhecidas de infertilidade.
Na mulher, a avaliação pode incluir:
- confirmação da ovulação;
- análises hormonais;
- exames imagiológicos para avaliar as trompas de Falópio e a cavidade uterina, como a HyCoSy, a histeroscopia ou, quando indicado, a laparoscopia.
No homem, o exame fundamental é o espermograma, que permite avaliar a qualidade do sémen.
Em determinadas situações, o médico poderá também solicitar estudos genéticos.
A infertilidade idiopática apenas é diagnosticada depois de excluídas outras causas conhecidas de infertilidade.
A infertilidade idiopática pode desaparecer espontaneamente?
Sim. O diagnóstico significa que não foi identificada uma causa para a dificuldade em engravidar, e não que a gravidez espontânea seja impossível. Alguns casais conseguem engravidar naturalmente, enquanto outros poderão beneficiar de tratamento.
Os tratamentos para a infertilidade idiopática são comparticipados em Portugal?
Em Portugal, o acesso à investigação e às técnicas de Procriação Medicamente Assistida através do SNS depende dos critérios clínicos e administrativos em vigor. O médico assistente ou a unidade responsável poderá esclarecer as opções disponíveis e os critérios aplicáveis a cada situação.
Vale a pena procurar uma segunda opinião médica após o diagnóstico de infertilidade idiopática?
Sim. Em muitos casos, é vantajoso que o acompanhamento seja feito por uma equipa multidisciplinar.
Dependendo da situação, poderá ser útil consultar diferentes especialistas, como:
- ginecologista especializado em medicina da reprodução;
- urologista (quando indicado);
- psicólogo;
- nutricionista.
A colaboração entre vários profissionais permite definir um plano de tratamento mais personalizado, aumentando as probabilidades de alcançar uma gravidez com segurança