Neste artigo:
- O que é a infertilidade?
- Infertilidade primária e infertilidade secundária
- Quando procurar ajuda médica?
- Causas da infertilidade feminina
- Causas da infertilidade masculina
- Infertilidade inexplicada: o que significa?
- Como é feito o diagnóstico da infertilidade?
- Diagnóstico da infertilidade masculina
- Tratamento da infertilidade: que opções existem?
- Dieta para fertilidade: a alimentação pode ajudar?
- Peso, exercício e fertilidade
- Infertilidade e saúde emocional
- O que deve lembrar
O que é a infertilidade?
A infertilidade é geralmente definida como a dificuldade em conseguir uma gravidez após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares, sem contraceção.
Isto não significa que exista sempre uma causa grave ou irreversível. Em alguns casos, a gravidez pode acontecer naturalmente mais tarde. Noutros, pode ser necessário investigar alterações hormonais, ovulatórias, uterinas, tubárias, testiculares, espermáticas ou outros fatores que estejam a dificultar a conceção.
A infertilidade deve ser entendida como uma questão do casal ou do projeto reprodutivo, e não apenas como um problema “da mulher” ou “do homem”. Por isso, quando existe dificuldade em engravidar, a avaliação deve incluir ambos os elementos do casal sempre que aplicável.
Infertilidade primária e infertilidade secundária
A infertilidade pode ser classificada em dois tipos principais.
Infertilidade primária
Fala-se em infertilidade primária quando nunca ocorreu uma gravidez, apesar de existirem tentativas regulares durante o período recomendado.
Infertilidade secundária
A infertilidade secundária acontece quando já houve uma gravidez anteriormente, mas surge dificuldade em engravidar novamente.
Em ambos os casos, as causas podem ser semelhantes. Ter engravidado no passado não garante que a fertilidade se mantenha igual ao longo do tempo, uma vez que fatores como idade, alterações hormonais, doenças ginecológicas, variações no esperma, peso, stress ou doenças crónicas podem interferir.
Quando procurar ajuda médica?
De forma geral, recomenda-se procurar avaliação médica quando a gravidez não acontece após 12 meses de relações sexuais regulares sem contraceção.
No entanto, não deve esperar um ano em todas as situações. É aconselhável procurar ajuda mais cedo em situações como:
- Idade igual ou superior a 35 anos;
- ciclos menstruais muito irregulares ou inexistentes;
- diagnóstico ou suspeita de endometriose ou síndrome dos ovários poliquísticos;
- história de cirurgias pélvicas, uterinas, ováricas ou testiculares;
- história de infeções sexualmente transmissíveis;
- abortos de repetição;
- dor pélvica crónica;
- suspeita de alterações no esperma;
- disfunção erétil ou alterações da ejaculação;
- tratamento oncológico prévio com quimioterapia ou radioterapia;
- doença crónica que possa afetar a fertilidade.
Quanto mais cedo for identificada a causa, mais cedo pode ser definido um plano adequado.
Causas da infertilidade feminina
A infertilidade feminina pode ter origem em diferentes alterações do sistema reprodutor, do sistema hormonal ou do estado geral de saúde.
Alterações da ovulação
A ovulação é o processo em que o ovário liberta um óvulo. Quando a ovulação não acontece regularmente, torna-se mais difícil engravidar.
As alterações da ovulação podem estar associadas a:
- síndrome dos ovários poliquísticos;
- alterações da tiroide;
- hiperprolactinemia;
- baixo peso;
- excesso de peso;
- stress prolongado;
- exercício físico excessivo;
- perturbações alimentares;
- insuficiência ovárica prematura;
- alterações no eixo hipotálamo-hipófise-ovário.
Ciclos muito irregulares, ausência de menstruação ou menstruações muito espaçadas podem ser sinais de que a ovulação não está a ocorrer de forma regular.
Endometriose
A endometriose é uma condição em que tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero. Pode causar dor menstrual intensa, dor durante as relações sexuais, dor pélvica crónica e dificuldade em engravidar.
A endometriose pode interferir com a fertilidade através de inflamação, aderências, alterações nas trompas uterinas ou impacto na qualidade dos ovócitos.
Alterações das trompas uterinas
As trompas uterinas, também chamadas trompas de Falópio, são essenciais para que o óvulo e o espermatozoide se encontrem. Quando estão obstruídas ou danificadas, a fecundação pode ficar comprometida.
As alterações tubárias podem resultar de:
- infeções pélvicas;
- infeções sexualmente transmissíveis;
- cirurgias abdominais ou pélvicas;
- endometriose;
- gravidez ectópica anterior;
- aderências.
Alterações do útero
Algumas alterações uterinas podem dificultar a implantação do embrião ou aumentar o risco de perda gestacional.
Entre as possíveis causas estão:
- miomas;
- pólipos endometriais;
- septo uterino;
- aderências intrauterinas;
- malformações uterinas;
- inflamações ou infeções.
Nem todos os miomas ou pólipos afetam a fertilidade. A relevância depende da localização, dimensão e sintomas associados.
Idade e reserva ovárica
A fertilidade feminina diminui com a idade, sobretudo a partir dos 35 anos. Esta redução está relacionada com a diminuição da quantidade e da qualidade dos ovócitos.
A reserva ovárica pode ser avaliada através de exames como a hormona antimülleriana, contagem de folículos antrais por ecografia e outros marcadores definidos pelo médico. Estes exames não dizem, isoladamente, se uma mulher consegue ou não engravidar, mas ajudam a orientar o diagnóstico e o tratamento.
Causas da infertilidade masculina
A infertilidade masculina está muitas vezes associada à produção, qualidade ou transporte dos espermatozoides.
Alterações do esperma
As alterações mais frequentes incluem:
- baixa concentração de espermatozoides;
- baixa motilidade;
- alterações da morfologia;
- ausência de espermatozoides no ejaculado;
- fragmentação aumentada do ADN espermático, em alguns casos.
Estas alterações podem ser detetadas através de um espermograma.
Varicocelo
O varicocelo é uma dilatação das veias do escroto. Pode aumentar a temperatura testicular e interferir com a produção de espermatozoides. Nem todas os varicocelos precisam de tratamento, mas em alguns casos a cirurgia pode ser considerada.
Alterações hormonais
A produção de espermatozoides depende de um equilíbrio hormonal adequado. Alterações nos níveis de testosterona, FSH, LH, prolactina ou hormonas da tiroide podem afetar a fertilidade masculina.
Doenças, infeções e cirurgias
Algumas situações podem interferir com a fertilidade masculina, como:
- infeções testiculares ou genitais;
- traumatismos nos testículos;
- criptorquidia;
- cirurgias urológicas;
- diabetes;
- doenças renais ou hepáticas;
- doenças da tiróide;
- tratamentos oncológicos;
uso de testosterona ou esteroides anabolizantes.
Estilo de vida
O tabaco, o álcool em excesso, o consumo de substâncias, o sedentarismo, o excesso de peso, a obesidade, a má alimentação e a exposição a calor intenso ou tóxicos ambientais podem afetar a qualidade do esperma.
Saiba como melhorar a fertilidade masculina.
Infertilidade inexplicada: o que significa?
Em alguns casais, os exames não identificam uma causa clara para a dificuldade em engravidar. Nestes casos, fala-se em infertilidade inexplicada ou idiopática.
Isto não significa que “está tudo bem” ou que a dificuldade não existe. Significa apenas que os exames disponíveis não conseguiram identificar uma causa específica. Dependendo da idade, tempo de tentativa, história clínica e resultados dos exames, o médico pode sugerir vigilância, indução da ovulação, inseminação intrauterina ou fertilização in vitro.
Como é feito o diagnóstico da infertilidade?
O diagnóstico da infertilidade deve ser feito de forma organizada e, sempre que possível, envolvendo os dois elementos do casal.
Diagnóstico da infertilidade feminina
A avaliação feminina pode incluir:
1. História clínica detalhada
O médico pergunta sobre:
- idade;
- tempo de tentativa de gravidez;
- regularidade dos ciclos;
- dor menstrual;
- dor durante as relações sexuais;
- antecedentes de gravidez;
- abortos anteriores;
- cirurgias;
- infeções;
- doenças crónicas;
- medicação;
- estilo de vida;
- histórico familiar.
2. Exame ginecológico
O exame pode ajudar a identificar sinais de alterações anatómicas, dor pélvica, infeções ou outras condições que mereçam investigação.
3. Ecografia ginecológica
A ecografia permite observar o útero, ovários, endométrio e folículos. Pode ajudar a identificar miomas, pólipos, quistos, alterações ováricas ou sinais compatíveis com síndrome dos ovários poliquísticos.
4. Avaliação da ovulação
A ovulação pode ser avaliada através da história menstrual, ecografia seriada, testes hormonais ou doseamento de progesterona numa fase específica do ciclo.
5. Análises hormonais
Podem ser pedidos exames como:
- FSH;
- LH;
- estradiol;
- progesterona;
- TSH;
- prolactina;
- hormona antimülleriana;
- testosterona;
- DHEA-S;
- androstenediona.
A escolha dos exames depende dos sintomas e da fase do ciclo.
6. Avaliação das trompas e cavidade uterina
Para avaliar se as trompas estão permeáveis e se a cavidade uterina tem alterações, podem ser usados exames como histerossalpingografia, histerossonografia, HyCoSy ou histeroscopia, conforme indicação médica.
Diagnóstico da infertilidade masculina
A avaliação masculina é essencial, mesmo quando a mulher tem ciclos regulares ou já foi identificada uma possível causa feminina.
1. História clínica e exame físico
O médico pode perguntar sobre:
- antecedentes de infeções;
- cirurgias;
- traumatismos;
- doenças crónicas;
- medicação;
- consumo de tabaco, álcool ou outras substâncias;
- uso de testosterona ou anabolizantes;
- função sexual;
- ereção e ejaculação;
- exposição a calor ou tóxicos;
- história familiar.
2. Espermograma
O espermograma é o exame de base para avaliar a fertilidade masculina. Analisa parâmetros como volume, concentração, motilidade e morfologia dos espermatozoides.
Se o resultado for alterado, pode ser necessário repetir o exame, uma vez que a qualidade do esperma pode variar ao longo do tempo.
3. Exames hormonais
Quando existem alterações no espermograma, o médico pode pedir doseamentos hormonais, como testosterona, FSH, LH, prolactina ou TSH.
4. Ecografia escrotal ou testicular
Pode ser recomendada se houver suspeita de varicocelo, alterações anatómicas, dor, nódulos ou outras alterações no exame físico.
5.Testes genéticos
Em situações de alterações graves do esperma, ausência de espermatozoides ou suspeita clínica, podem ser pedidos testes genéticos para orientar o diagnóstico e o tratamento.
Tratamento da infertilidade: que opções existem?
O tratamento depende da causa, da idade, do tempo de tentativa, dos resultados dos exames, da reserva ovárica, da qualidade do esperma e dos objetivos da pessoa ou casal.
Monitorização do ciclo e identificação dos dias férteis
Em algumas situações, pode ser suficiente acompanhar o ciclo, confirmar a ovulação e orientar as relações sexuais para o período fértil.
Esta abordagem pode ser útil quando não existe uma causa grave identificada e o tempo de tentativa ainda é curto.
Indução da ovulação
Quando há alterações da ovulação, o médico pode recomendar medicamentos para estimular o desenvolvimento folicular e desencadear ou regular a ovulação.
Este tratamento exige acompanhamento ecográfico e, por vezes, análises hormonais, para reduzir riscos como gravidez múltipla ou hiperestimulação ovárica.
Tratamento cirúrgico
A cirurgia pode ser considerada em casos selecionados, como:
- endometriose;
- pólipos;
- certos miomas;
- aderências;
- alterações uterinas;
- obstruções tubárias;
- varicocelo.
A decisão deve ser individualizada, pois nem todas as alterações anatómicas precisam de cirurgia antes de tentar engravidar.
Inseminação intrauterina
A inseminação intrauterina consiste em preparar laboratorialmente uma amostra de esperma e introduzi-la diretamente no útero no período próximo da ovulação.
Pode ser considerada em casos de alterações ligeiras do esperma, dificuldades de ejaculação, infertilidade inexplicada de curta duração, alguns problemas de ovulação ou recurso a esperma de dador.
Fertilização in vitro
A fertilização in vitro, também chamada FIV, é uma técnica de procriação medicamente assistida em que os ovócitos são recolhidos após estimulação ovárica e fecundados em laboratório. Depois, um embrião é transferido para o útero.
Pode ser indicada em situações como obstrução das trompas, endometriose, alterações importantes do esperma, insucesso de tratamentos anteriores, idade materna avançada ou infertilidade inexplicada prolongada.
ICSI
A ICSI, ou microinjeção intracitoplasmática de espermatozoide, é uma técnica em que um espermatozoide é introduzido diretamente no ovócito. É frequentemente usada quando há alterações importantes na qualidade do esperma ou em alguns casos de FIV.
Dieta para fertilidade: a alimentação pode ajudar?
A alimentação não substitui o diagnóstico nem o tratamento médico, mas pode contribuir para um melhor equilíbrio hormonal, qualidade ovulatória, qualidade do esperma e saúde geral.
Um padrão alimentar semelhante à dieta mediterrânica pode ser benéfico para quem está a tentar engravidar. Este tipo de alimentação privilegia:
- legumes e hortícolas;
- fruta;
- leguminosas;
- cereais integrais;
- peixe;
- ovos;
- frutos secos;
- azeite;
- boa hidratação.
Nutrientes como ácido fólico, zinco, selénio, iodo, ferro, vitamina D, vitaminas do complexo B e ómega-3 podem ter relevância na saúde reprodutiva. A necessidade de suplementação deve ser avaliada individualmente, sobretudo em fase pré-concecional.
Por outro lado, convém reduzir o consumo frequente de:
- alimentos ultraprocessados;
- açúcar em excesso;
- gorduras trans;
- álcool;
- bebidas açucaradas;
- excesso de carnes processadas;
- tabaco e outras substâncias.
Peso, exercício e fertilidade
Tanto o excesso de peso como o baixo peso podem interferir com a fertilidade. Nas mulheres, podem alterar a ovulação e a regularidade menstrual. Nos homens, podem afetar parâmetros do esperma e níveis hormonais.
A prática regular de exercício moderado pode ajudar a melhorar a saúde metabólica, reduzir stress e apoiar o equilíbrio hormonal. No entanto, exercício físico muito intenso, associado a baixa disponibilidade energética, pode perturbar o ciclo menstrual.
O objetivo não deve ser uma mudança drástica, mas sim criar hábitos sustentáveis.
Infertilidade e saúde emocional
A infertilidade pode ser uma experiência emocionalmente difícil. É comum sentir frustração, culpa, tristeza, ansiedade, desgaste na relação ou sensação de isolamento.
Estas emoções são válidas. Procurar apoio psicológico, falar com profissionais de saúde e encontrar grupos de suporte pode ajudar a lidar com o processo.
A fertilidade não depende apenas de “relaxar” ou “pensar positivo”. Comentários desse tipo podem ser injustos e aumentar a pressão emocional. A infertilidade é uma condição médica que merece avaliação, cuidado e respeito.
O que deve lembrar
A infertilidade pode ter causas femininas, masculinas, mistas ou inexplicadas. Por isso, a investigação deve envolver ambos os elementos do casal sempre que aplicável.
Se tem menos de 35 anos e está a tentar engravidar há 12 meses sem sucesso, procure ajuda médica. Se tem 35 anos ou mais, ciclos irregulares, endometriose, síndrome dos ovários poliquísticos, antecedentes relevantes ou suspeita de fator masculino, deve procurar avaliação mais cedo.
Hoje existem várias opções de diagnóstico e tratamento, desde ajustes no estilo de vida até técnicas de procriação medicamente assistida. O plano mais adequado depende sempre da causa e da história clínica individual.
Perguntas frequentes sobre infertilidade
Quanto tempo devo tentar engravidar antes de procurar ajuda?
De forma geral, recomenda-se procurar avaliação após 12 meses de relações sexuais regulares sem contraceção. A partir dos 35 anos, ou quando existem fatores de risco, é aconselhável procurar ajuda mais cedo.
A infertilidade afeta mais as mulheres ou os homens?
A infertilidade pode ter origem feminina, masculina, mista ou inexplicada. Por isso, é importante avaliar ambos os elementos do casal e não assumir que a causa está apenas num dos lados.
Ciclos irregulares podem dificultar a gravidez?
Sim. Ciclos irregulares podem indicar alterações da ovulação, o que pode dificultar a conceção. Nestes casos, a avaliação médica é recomendada.
O espermograma é mesmo necessário?
Sim. O espermograma é um exame essencial na investigação da infertilidade, porque permite avaliar concentração, motilidade e morfologia dos espermatozoides.
A alimentação pode melhorar a fertilidade?
Uma alimentação equilibrada pode apoiar a saúde reprodutiva, melhorar o estado metabólico e contribuir para melhores condições gerais. No entanto, não substitui o diagnóstico nem o tratamento médico quando há uma causa de infertilidade.
O stress causa infertilidade?
O stress pode afetar o bem-estar, o sono, a libido e alguns hábitos de vida, mas não deve ser tratado como a única explicação para a infertilidade. Quando a gravidez não acontece, é importante investigar causas médicas.
A infertilidade tem sempre tratamento?
Nem todos os casos têm a mesma resposta, mas muitos podem beneficiar de tratamento ou acompanhamento especializado. A abordagem pode incluir indução da ovulação, cirurgia, inseminação intrauterina, fertilização in vitro ou outras técnicas de procriação medicamente assistida.
O que é infertilidade inexplicada?
É quando, após investigação, não se encontra uma causa clara para a dificuldade em engravidar. Mesmo assim, podem existir opções de tratamento, dependendo da idade, tempo de tentativa e história clínica.
Quando a fertilização in vitro é indicada?
A fertilização in vitro pode ser indicada em casos de obstrução tubária, endometriose, alterações importantes do esperma, idade materna avançada, falha de tratamentos anteriores ou infertilidade inexplicada prolongada.
Devo tomar suplementos para fertilidade?
A suplementação deve ser avaliada por um profissional de saúde. Em fase pré-concecional, o ácido fólico é frequentemente recomendado, mas outros suplementos devem depender das necessidades individuais.