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Prematuridade

Separação Zero

Olá, o meu nome é Hugo e sou ex-prematuro crónico. Pelo que fui informado, sofro disto desde que nasci, há algumas décadas atrás, algures numa ilha atlântica, pesando aproximadamente o mesmo que um saco de arroz (cheio).

Terça, 16 de Novembro de 2021

Olá, o meu nome é Hugo e sou ex-prematuro crónico. Pelo que fui informado, sofro disto desde que nasci, há algumas décadas atrás, algures numa ilha atlântica, pesando aproximadamente o mesmo que um saco de arroz (cheio).
Sofrer de prematuridade crónica felizmente já não é o que era, uma vez que muito mudou nos cuidados prestados a estes pequenos grandes guerreiros, que hoje em dia nascem com o equivalente a um pacote de queijo fatiado (nem sempre cheio!).
Na altura em que me saiu o Euromilhões, na década de 80, os cuidados intensivos neonatais, como os conhecemos hoje, estavam a começar a dar os primeiros passos. Aos meus pais foi dada a hipótese de eu ficar na ilha, com escassas previsões de sobrevivência (pelo menos sem sequelas graves), ou ser transferido para o Continente (Portugal Continental, não a superfície comercial, até porque a minha ilha só teve a primeira grande superfície comercial quando eu já andava de bicicleta sem rodinhas e tinha uma penugem na face que viria a ser um bigode muitos anos depois). Esta transferência seria feita para uma das poucas maternidades com “intensivos” neonatais em Lisboa, numa coisa que não sei se podia ser chamada de incubadora. Hoje em dia os meus filhos levam comida para a escola numa marmita mais estanque que a referida “caixa” e a comida chega à escola mais quente do que eu iria chegar a essa maternidade. Ao escolherem que eu ficasse na ilha, foi feito tudo o que estava ao alcance dos profissionais de saúde, a quem eu devo literalmente a minha vida e a quem estarei eternamente grato. Isto porque se dependesse apenas do equipamento disponível na altura, não sei se estariam a ler este pequeno depoimento… Não havendo ventiladores, dependendo de terapêuticas por vezes “experimentais”, com muito amor e com leite a ser espremido de um algodão para a minha boca (leite este de uma ama de leite, uma vez que todo o stress a que a minha mãe foi submetida, levou a outra condição da qual sofro - órfão de mama), lá fui ultrapassando os múltiplos desafios que são apresentados aos ex-prematuros crónicos e atualmente tenho o enorme prazer e felicidade de poder ser eu a ajudá-los do lado de cá.
Com todo o avanço tecnológico que a neonatologia viveu nestas últimas décadas, hoje em dia conseguimos presenciar verdadeiros milagres de sobrevivência e temos dos melhores indicadores a nível mundial no que diz respeito à morbi-mortalidade materno-fetal. Vivemos nos últimos anos o boom das “máquinas”, com ventiladores cada vez mais ajustados às necessidades dos prematuros e com modalidades cada vez menos invasivas e mais fisiológicas, tivemos uma melhoria incrível dos cuidados de assepsia e controlo de infeção, evoluímos muito na nutrição destes mini nenucos e, globalmente, assistimos a uma crescente sobreviva cada vez com menos morbilidades associadas.
Passado este frenesim tecnológico e intensivista, cada vez mais nos viramos para outras questões fundamentais para o bem-estar dos recém-nascidos e das suas famílias, não menos importantes que a maquinaria. Atualmente focamo-nos cada vez mais no ruído das Unidades de Cuidados Intensivos, na luz, nos alarmes, na estimulação táctil e num ponto fundamental de todo este processo, nos pais! Na presença dos pais na unidade, na inclusão dos pais na prestação de cuidados, na discussão da evolução clínica e na opinião e desejos dos pais para os seus filhos. Infelizmente a pandemia que vivemos levou-nos de volta a uma “idade média” a este respeito, com mães isoladas, pais sem poderem assistir aos partos, sem poderem acompanhar a mãe no puerpério e sem poderem visitar os filhos desde o nascimento até por vezes já terem vários meses de vida. Quando olharmos para trás, espero que consigamos ver a crueldade que isto foi e que consigamos gerir de uma maneira muito mais inteligente se voltar a acontecer. Mas tal como os sonhos, o medo também comanda a vida! E o medo que nós tivemos fez com que muitas mães e pais passassem por períodos de grande ansiedade, muita frustração, muito desespero e muitos sentimentos depressivos. Mas igualmente deletério ou eventualmente pior, tivemos os nossos futuros ex-prematuros crónicos privados do amor e carinho que mais ninguém consegue mimetizar.
Como em tudo na vida, as experiências pelas quais passamos podem trazer-nos momentos bons ou momentos menos bons, mas independentemente disso há sempre um processo de crescimento e aprendizagem a retirar dessas experiências. Neste dia 17 de Novembro de 2021, gostava de homenagear todas as famílias que passaram por este processo tão doloroso e gostava genuinamente que no futuro não tivéssemos que submeter os nossos guerreiros a tal privação novamente.

Dr. Hugo Cavaco
Neonatologista no HBA

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